Review Doov R77
Este review também está disponível em inglês.

O que é?
O Doov R77 é, em tese, só mais um smartphone Android. O que diferencia o aparelho é o formato: com uma tela de 2,8” e teclado numérico, ele é bem diferente do que consideramos um smartphone hoje em dia.
A proposta é ser um aparelho mais simples, que não dê tanto espaço para redes sociais e navegação, mas sem ficar completamente desconectado do ecossistema atual, que depende de tantos apps.
É até uma categoria difícil de nomear. Embora esse formato de smartphone “light” seja comum em comunidades como o r/dumbphones no Reddit, existe alguma controvérsia sobre até que ponto ainda dá para considerar um aparelho Android como “dumb”. (Inclusive, uma distribuição Android feita para aparelhos assim se chamava Dumbroid, mas, depois de um “cease & desist” do Google, precisou mudar de nome para DumberOS.)
Eu, particularmente, não comprei o R77 com a intenção de diminuir meu tempo de tela. Ele fazia parte da minha estratégia de segurança para uma viagem mais longa ao Brasil: queria ter um telefone secundário que pudesse usar com mais tranquilidade andando na rua, mas sem abrir mão de mensageiros, mapas e apps de transporte.
Hardware
O Doov R77 tem especificações simples para um smartphone, mas que ao mesmo tempo impressionam para um “dumbphone”: o processador é um MediaTek MT6762, acompanhado de 3 GB de RAM e 32 GB de armazenamento.
O aparelho mede 133,2 × 54,2 × 9,5 mm e pesa 113 g, já com a bateria.
A tela tem 2,8”, com resolução de 640 × 480 pixels, e usa um painel LCD IPS com touchscreen capacitiva sem os problemas de ângulo de visão comuns em aparelhos mais simples.
Em conectividade, há GPS, Wi-Fi, Bluetooth e 4G, com suporte às bandas 1, 3, 5, 7, 8, 28, 38, 39 e 41. Testei a conexão móvel com chips da Vivo, no Brasil, e da DIGI, em Portugal. Pelo aspecto um pouco “retrô” do aparelho, senti falta de uma entrada P2 para fones de ouvido.
Há suporte para dois chips SIM ou para um SIM e um cartão microSD.
Câmera é um assunto mais complicado. Existem duas versões, o R77 e o R77 Pro. Quando comprei, fiquei comparando as especificações imaginando que a versão Pro teria mais RAM ou um processador diferente — e não percebi que a única diferença entre as duas é a ausência de câmeras no modelo base. O R77 Pro tem uma câmera frontal de 2 MP e uma traseira de 5 MP. Eu esperava ter ao menos uma câmera para ler QR Codes, mas acabei ficando sem.
Comprei o aparelho por 63,90 €, e ele tem a qualidade esperada pelo preço: o corpo é todo de plástico, inclusive a tela, que rapidamente fica bastante arranhada. Isso até é compreensível, mas não consigo relevar a implementação estranha do USB-C. Quando o telefone chegou, liguei-o a um carregador que já estava por aqui e nada aconteceu… achei que havia algum defeito. Lendo no Reddit (nesta thread, acho), descobri que era preciso usar um cabo USB-A para USB-C, porque ele não funciona com carregadores USB-PD. Com esse tipo de cabo, porém, tanto o ADB quanto o acesso aos arquivos funcionaram normalmente.
As teclas são firmes e grandes o bastante para evitar apertar o número errado. Estranhamente, não há botões de volume: isso depende inteiramente da interface do aparelho.
Acho que minha única reclamação séria é a iluminação desigual do teclado: as teclas mais próximas das bordas ficam menos visíveis no escuro.
Desempenho não é o foco desse aparelho, mas, para dar um parâmetro de comparação, ele marcou 170 pontos em single-core e 727 em multi-core no Geekbench 7 (link), teve um resultado bem parecido no Geekbench 6 (link) e um score de GPU quase zerado (link).
Software

Pelos anúncios que vi, o Doov R77 pode vir com Android 13 ou 14. A unidade que comprei chegou com Android 14, em uma ROM desconhecida, com algumas customizações para o formato do aparelho.
Não tive muita confiança na ROM pré-instalada e fui atrás de uma alternativa. Foi assim que cheguei ao DumberOS, uma ROM aberta feita para esse tipo de aparelho. A instalação é simples e, depois da primeira vez, feita pelo computador, todas as atualizações seguintes puderam ser instaladas pelo próprio celular sem problemas.
Preferi manter a versão com Google Play para garantir compatibilidade com o máximo de apps possível, mas também é possível usar o Aurora Store como substituto da Play Store e o microG no lugar dos serviços do Google.
A maioria dos apps que precisei usar foi mais responsiva do que eu imaginava, tanto em velocidade quanto na adaptação do layout à telinha. O ponto fraco, na maior parte das vezes, era a navegação pelas teclas físicas: o WhatsApp permitia navegar pelas conversas usando os direcionais; o Telegram, não.
Apps bancários foram uma exceção. No Nubank e no C6 Bank, fiquei preso na validação biométrica, que exige tirar uma foto — impossível no R77 sem câmeras. O Revolut nem chegou a abrir por causa do bootloader desbloqueado ou da ROM customizada.
Apps do Google, em geral, funcionam muito bem usando apenas o teclado. Não é incomum acabar preferindo a touchscreen para algumas ações, mas isso não me pareceu um problema, considerando que a alternativa muitas vezes seria rolar a tela inteira até chegar à opção desejada.
Algo curioso: de início, instalei o Google Maps “para Android Go”, na esperança de ter um cliente mais leve. Além de ser bastante lento (depois percebi que é um webapp) ele era quase impossível de navegar com o teclado. Instalei o app nativo e fiquei surpreso com o quanto ele era mais rápido e prático de usar.
Alguns apps têm comportamentos engraçados, mas quase sempre são questões cosméticas. O Uber, por exemplo, durante uma viagem não consegue atualizar a posição do carro sobre o trajeto: dá para ver a linha do percurso diminuindo conforme a viagem avança, mas o ícone do carro fica parado na posição original.

O DumberOS vem com um teclado T9 bastante amigável, que funcionou bem em todos os apps. Ele suporta mais de um idioma, mas é preciso alternar entre eles manualmente — escrever palavras como “delivery” em um texto em português, por exemplo, se torna bastante difícil. Em algumas frases, acabei desligando a predição de texto.
Também é complicado digitar senhas com muitos caracteres especiais. Dá para customizar os caracteres especiais de cada tecla, mas, na hora de configurar alguma conta, às vezes é mais prático habilitar o teclado alfanumérico na tela e sofrer um pouco para digitar em uma área tão pequena.
Uma customização interessante é o menu de notificações e o “control center” específico do aparelho. Ao apertar o botão esquerdo, aparecem as notificações em uma interface mais simples e legível do que a padrão do Android; apertando novamente, abre-se um menu com diversas configurações, incluindo uma forma fácil de desativar a rede de dados ou a touchscreen.
Navegar na web é uma experiência ruim… não tanto pelo tamanho da tela, mas pelo desempenho do navegador diante de qualquer JavaScript mais pesado, ou seja, boa parte da web hoje em dia. A melhor solução que encontrei para tirar dúvidas rápidas foi usar o app do ChatGPT, que funciona bem no aparelho. Resolver questões pontuais — achar uma loja que não aparecia no Google Maps, por exemplo — funciona bem melhor do que sofrer com a renderização lenta do navegador.
Como segundo aparelho, a maioria dos apps se comportou bem. O WhatsApp agora permite ser vinculado a um aparelho principal, o que resolveu o problema de trocar de conta entre dispositivos. O Telegram sempre suportou múltiplos dispositivos e funciona bem.
O Uber, em especial, funcionou muito bem em vários aparelhos ao mesmo tempo: dava para pedir um carro pelo iPhone e receber a notificação no R77, ou pedir pelo telefoninho e receber atualizações no Apple Watch. Parece simples, mas manter vários aparelhos na mesma conta com notificações sincronizadas tem certa complexidade, e nem sempre funciona bem.
O app do 99, em compensação, simplesmente não funciona com a mesma conta em mais de um aparelho: faço login no R77 e ele desconecta o iPhone, e vice-versa.
Depois que voltei de São Paulo, instalei mais apps no R77 para ter uma ideia de como ele se sairia como único aparelho de alguém.
O TikTok é praticamente inutilizável: todo vídeo tem inúmeros travamentos e, muitas vezes, o app trava por completo. O Instagram é um pouco mais viável, mas foi, estranhamente, o único app em que tive problemas de layout: fica uma barra branca de cerca de 32 pixels na parte inferior que, em uma tela tão pequena, atrapalha bastante o uso. Ainda assim, ao menos para responder DMs, funciona.

Apple Music e Spotify funcionam bem, mas o Spotify é mais difícil de usar com o teclado e depende mais da touchscreen.
Bateria
A bateria do R77 tem 2.100 mAh, o que inicialmente me deu algum receio de que a autonomia fosse ruim. Não é muita bateria, e o processador, mais antigo, também não é exatamente eficiente.
Mas eu estava errado.
Acho que, em parte pela tela pequena e simples, mas também pelo próprio modo de uso, a bateria quase sempre durava mais de dois dias. Isso com dados móveis em 4G sempre ligados, WhatsApp e Telegram constantemente sincronizando e uso eventual de mapas ou apps de transporte.
Chegou a ser um problema, porque muitas vezes eu esquecia de carregá-lo justamente por ele durar tanto.
A única vez em que realmente vi a bateria acabar rápido foi quando o plano de dados expirou e o aparelho não conseguia se conectar a nada: em cerca de seis horas, o telefone morreu.
Mesmo com uso mais intenso, com streaming de música pela rede celular e GPS frequente no Citymapper, a bateria ainda durava tranquilamente mais de dois dias.
Faz sentido?
O Doov R77 é um aparelho bastante peculiar. Apesar dos benchmarks que parecem uma viagem no tempo, ele é relativamente rápido e resolve a maior parte das tarefas melhor do que eu esperava.
Não nego que sou heavy user demais de smartphone para conseguir usá-lo como dispositivo principal, mas ele ficou bem longe da frustração que eu imaginava sentir ao usá-lo.
Para alguém disposto a se desconectar mais, parece um bom equilíbrio: é um telefone competente para algumas tarefas essenciais, mas cujo hardware praticamente impede manter um tempo de tela muito alto.
Falta uma tela melhor: confesso que senti falta de uma película, considerando quão frágil é o plástico e é estranho usar um telefone inteiramente de plástico, mas o preço explica boa parte dessas concessões.
Senti bastante falta de NFC para pagamentos, mas o panorama para aparelhos independentes é complicado. O Dumber Mini tem NFC, mas ele não funciona com o Google Pay por não ser um aparelho homologado pelo Google.
Dentro de uma proposta parecida, existe o SidePhone, com acabamento mais premium e que achei bastante bonito mas ele começa em 259 € por especificações muito próximas às do R77. O processador até é mais novo, mas o desempenho é semelhante.